segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

{filme} O Som ao Redor

Gostaria de fazer uma resenha do filme "O Som ao Redor". Ele será a obra cinematográfica que estreará a tag cinema por estas bandas (culpa das resoluções de 2013). Esclareço: sou cinéfila, mas simplesmente não escrevia sobre isso, até hoje. Apenas discutia, e muito, com meus poucos amigos que também gostam de filmes. 

Devido à peculiar diferença do filme em questão, pensei em dividí-lo em duas partes: a primeira seria uma tentativa de olhar mais descritivo, contudo sem levar em consideração as sensações causadas pelo filme por conter gente conhecida, prédios recorrentes, histórias verdadeiramente vividas por mim pelos arredores das ruelas, praia de tardes peguentas e das leituras sob o Sol manso. A segunda parte vai conter justamente o supracitado: um relato pessoal misturadíssimo ao filme. Isso pelo motivo de eu ter vivido ali, naquele contexto, naquele bairro, a pouquíssimos metros da rua em que ocorreram as gravações. Explicarei-me logo mais. O trailer abaixo vai corroborar com meus elogios, deem uma apreciada:



1º PARTE

O filme "O Som ao Redor", de Kleber Mendonça Filho, é a primeira investida do diretor em longa-metragem de ficção. Nunca vi outros filmes dele, mas já escutei falar muito bem de "Recife Frio". O conhecimento que tinha de Kleber era apenas da Janela Internacional de Cinema do Recife, evento grandioso que junta um pessoal amante de cultura de cinema (geralmente são mostras de clássicos e filmes pernambucanos), lá no São Luiz (cinema velhinho que foi restaurado para abrigar essa evolução pernambucana, foto logo abaixo) e no Cinema da Fundação. Tinha visto o cineasta fazendo algumas apresentações antes do festival começar. Na época (há menos de um ano), ele parecia só um idealizador estudioso com ar nerd, por conta dos óculos de armação grossa. Criou um filme inesquecível.


A história é ambientada no Recife, capital de Pernambuco, com destaque para uma rua em que existem, predominantemente, altos prédios. As casas já são raras, porém as lembranças dos tempos em que as residências não eram sugadas por especulação mobiliária permanece na mente de alguns moradores. Essa arquitetura ilustra muito bem a brutalidade dos lugares em que moramos, os quais são construídos cada vez mais verticais e solitários, com a tentativa de proteção que, por vezes, se confunde em desigualdade social e afastamento.

A (falta de) segurança é questão crucial, abordada com sagacidade pelo diretor. As famílias que vivem nessa rua sofrem com o descaso do governo diante da violência comum nos centros urbanos de todo o país.  Sofrem e pagam por isso. Essa narrativa (a exemplo de roubos do som de carro ou privação da classe média em possuir certos objetos) é contextualizada em Recife, mas abrange perfeitamente outras capitais brasileiras. Esse tema impacta diretamente na milícia, liderada por Clodoaldo (Irandhir Santos), que rapidamente se estabelece na vizinhança e promete a paz, em troca da bagatela de R$ 20 por cada casa protegida. É maravilhosamente paradoxal como o grupo de seguranças traz tensão àquela rua.

Se o tema segurança permeia todo o enredo, os sons são vitais para a obra ter êxito. A poluição sonora frequente, como o relato da vizinha incrivelmente incomodada pelo cachorro que só sabe uivar, ou até o barulho agoniante da chave destruindo o carro (vista no comecinho do trailer), desenvolve a identidade dos problemas de uma sociedade dividida pelas diversas classes que o capitalismo cultiva e que os senhores de engenho deixaram de herança.

Dentro de tudo isso, ainda tem um humor impagável, que revela tanto gírias do povo pernambucano e recifense, como situações cotidianas, engraçadas pelo desenrolar das histórias. Destaque para a cena em que os condôminos se reúnem para decidir sobre a permanência do porteiro que dorme, e quais argumentos são usados.

Alguns personagens marcam forte presença na trama de final inesperado, embora não sejam os únicos com boas histórias para contar. O moço jovem, rico, simpático e educado, chamado João (Gustavo Han), que administra os negócios da família (mas odeia), a dona de casa de classe média, incomodada pelo cachorro do vizinho, mãe de dois filhos, esposa de homem trabalhador, usuária de maconha vez ou outra. O Sr. Francisco (Waldemar Solha), avô de João, um exemplo de como o patriarcado e a opressão social persistem com o passar dos anos, diante do poder que ele apresenta na vizinhança (ele detém mais da metade dos imóveis do bairro), e o segurança Clodoaldo. A história expõe intuitivamente as contradições da típica sociedade brasileira e também o preconceito enraizado, perante hierarquia invisível ou visível a partir de eufemismos. Uma cena que ilustra muito bem isso é quando o Sr. Francisco vai, tarde da noite, mergulhar na praia de Boa Viagem, mesmo com o aviso enorme sobre o perigo de tubarões.

O filme não é só aclamado por mim, reles mortal magricela. A repercussão foi tanta que chegou aos ouvidos do The New York Times, o qual escolheu como um dos melhores filmes do ano passado (apenas citando, já que adoramos tanto a opinião dos americanos). Vários prêmios, como de Roterdã, Rio de Janeiro e Gramado, também respaldaram a qualidade do filme bastante revelador.

Seguem algumas fotos do filme, retiradas do site oficial:




2º PARTE

Agora vem uma parte meio non-sense, mais pessoal e, sobretudo melosa. Curta, ao menos. E meio babona. Eu poderia escolher eufemismos, pois isso é o que mais sabemos fazer para nos incluirmos em papéis sociais bem aceitos, porém abrirei mão da palhaçada. 

Vou falar com os olhinhos cheios de orgulho: assisti a uma obra prima filmada ali, a duas ruas do meu apartamento minúsculo. Eu, que estou tão acostumada a venerar lugares que estão a quilômetros de distância. Eu, repleta de desejo por Paris e Inglaterra, e cheia de sentimento de injustiça divina. Eu, que crio indagações repetitivas e precárias como: "qual motivo, ó Senhor, que escolheste me jogar aqui? Qual pecado cometi, além de ter nascido mulher, claro?". [Lembrem-se/saibam que sou irônica.]

Nesse aclamado filme, você encontrará o bairro em que já morei por alguns anos, Setúbal, que não se decide se é bairro ou adendo do célebre Boa Viagem (as cartas endereçadas ficavam deveras confusas nessa escolha). As gírias da minha cidade, os traços de rostos conhecidos (Alô Sandrinho, companheiro das paradas esperando para sempre ônibus, atuando lá lindamente, e Bruno Negaum, produtor de eventos famosíssimo aqui de Recife, desenvolvendo cena hilária), as árvores, as esquinas, o colégio filmado (considerado de péssima escolha por pais e mestres), as relações, o problema social, os carros violentados, os encontros íntimos sem nenhum compromisso (não dá para taggear), a reunião de condomínio, os chatos condôminos - aqueles insuportáveis hipócritas -, os malditos seguranças que mais dão medo que protegem. Tudo aquilo que está na tela é muito próximo do que vivo, do que vivi. Minhas intocadas memórias, agora cutucadas. Foi um presente inesperado. Quero rever!

E você, já ouviu falar de "O Som ao Redor"? Está passando aí na sua cidade? Estou curiosíssima para ver opiniões e compreensões que o filme causará em cidadãos de outros Estados do Brasil e, sobretudo, em estrangeiros. Vá ao cinema, vale muito a pena. E o cinema também ajuda a mostrar, com mais qualidade, o desenho de som genial de Kleber e Pablo Lamar.


13 comentários

  1. gente, quero muito ver esse filme. tô super curioso! :)

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  2. Gostei, também quero muito assistir *-* Aline, obrigada pela visita no meu blog, que bom que gostou das fotos do projeto 365, vou continuar sim, valeu pelo incentivo! Beijos, Ana (:

    http://alimentandosentimentos.blogspot.com.br/

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  3. Tenho ouvido críticas super positivas sobre esse filme, preciso assistir!

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  4. Parece ser um filme bem intenso!

    ♥ Blog Cerejas no Topo:
    http://www.cerejasnotopo.com

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  5. Ainda não tinha ouvido falar sobre este filme, mas como a Natasha disse: parece ser um filme intenso.
    Fiquei curiosa! Vou conferir assim que possível!
    Beijos, flor!
    http://critiquinha.com/

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  6. Oi, Carla. Pois é sempre interessante ver as diversas opiniões das pessoas que viram o filme, principalmente por ser um realidade tão próxima. E poxa, você morava praticamente no set de gravação? Que massa isso. Já eu sou da Zona Norte, mas o contexto é o mesmo.

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  7. Eu vi muitos comentários sobre o filme, mas ainda não conseguir assistí-lo. Acho super lindo quando um filme aqui da terrinha ganha visibilidade e elogios, pois mostra que Pernambuco tem muita coisa boa e que o cinema é uma delas.

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  8. Que coisa linda que deve ser esse filme! Aqui ainda não chegou, mas vou ver nas cidades maiores aqui ao redor para ver se já está em cartaz, geralmente demora para caramba. :~

    Mas deve ser incrível a sensação de ter um filme gravado perto de casa né?! Você chegou a ver as filmagens? Adorei sua opinião sobre ele, deu mais vontade ainda de ver.

    :*

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  9. Já fui mais cinéfilo. Tenho uma prateleira com mais de 300 dvds em casa, só que hoje em dia eu sou mais séries e livros. Não que eu não curta cinema, eu só não sou mais tão frenético. Teve tempos em que eu assistia dois filmes por dia. haha Nunca fui fã do cinema nacional - e isso não é nenhum preconceito babaca sem fundamento. Eu vejo tudo - só não gosto muito. De qualquer forma, vou conferir o que você indicou, principalmente pela segunda parte do post (a mais pessoal e melosa, essa mesmo).

    obs: Gostei muito do seu comentário lá no blog. Sério, valeu.

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  10. Que bacana isso, de assistir a um filme que foi filmado em um lugar assim tão familiar, deve mesmo ser incrível poder ver a esquina que você passa vez ou outra ali, na tela com personagens, outras história, outras canções.
    Eu não havia ouvido falar ainda deste filme e seu realizador, bom conhecer.
    Obrigada pela sugestão. ^^

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  11. Ai não! Não quero ler porque não vi o filme ainda e não quero ser influenciada.

    Mas vou comentar pq vc pediu sujestões de livros como 50 tons lá no meu blog. Então, depende do que vc quer, mas eu ando sujerindo "A Casa dos Budas Ditosos", do João Ubaldo Ribeiro, pra todo mundo que tem me pedido indicação. É meio hardcore (me chocou, pelo menos) e é um livro sobre sexo. Não tem historinha, é só uma mulher contando as aventuras sexuais, bem mais interessante, acho. Espero que goste. :)

    Ah, achei lindo a cidade com os balões do seu background.

    Beijo!

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  12. Fico meio irritada quando alguém diz que não gosta de cinema nacional, porque geralmente, quando dizem isso é porque esse alguém só tem contato com filme do tipo Se Eu Fosse Você ou De Pernas Pro Ar, esses da globo. Fiquei morrendo de vontade de ver esse, vou ver se encontro em algum lugar :)
    beijos!

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