Vim contar minha história de sexta-feira (05/07). Estava de noite e eu
fui fazer minha derradeira prova de Economia Brasileira, às 19h. Cheguei
lá suando e morrendo de dor de cabeça, pois essa matéria me deixa muito
nervosa. A prova acabou sendo em grupo de quatro pessoas com direito à
consulta. Ou seja, no final das contas foi mamão com açúcar. De modo que
quando saímos da prova (eu e outra amiga), pensamos em começar as
férias com o pé direito, indo ao cinema que é bem perto da faculdade
(isso sim é sorte!). Para isso, tentamos olhar no meu smartphone qual
horário e sessão teria, porém o site cola uma imagem da programação, e
não tem aplicativos para celular, então dificultou bastante
identificarmos o nome do filme. Só deu para discernir que às 21h haveria
a última película do dia. Fomos então ao Cinema da Fundação Joaquim
Nabuco, único serviço público com um bom custo/benefício de Recife. Ao
longo do caminho, conversamos sobre como é interessante e surpreendente
fazer coisas sem tanto planejamento, como ir ao cinema e ver um filme
sem nem ao menos saber seu título. É claro que estávamos acreditando em
Kléber Mendonça e todos os outros que fazem parte das seleções que
passam lá nesse cinema. Praticamente todos não são de bilheteria,
portanto você vai lá para ver algo que os grandes cinemas ignoram. Só
assim você acha raridades visuais.
Chegamos bem antes da sessão, compramos nossos ingressos e perguntamos
finalmente o título. O filme se chamava "Deixe a luz acesa", o que
novamente nos deixava na escuridão sobre o conteúdo. O vendedor nos
alertou sobre um atraso de 20 minutos que ocorreria. Decidimos então
comer alguma coisa no
Castigliani Café,
local bem aconchegante de lá do cinema que mostra todas as pessoas
alternativas que você não vê no dia a dia em Recife. Sempre acho que
esse povo está preso em algum lugar, ou são ricos demais para trabalhar e
andar de ônibus. Não sei, ao certo. Enfim, dividimos um misto quente
(uma das variedades mais baratas do cardápio) e um refrigerante, pois
não tinha suco de laranja.

Percebemos que às 21h as mesas começaram a esvaziar. E a portinha do
cinema já estava empoleirada de gente querendo sentar e ver o filme.
Esperamos 10 minutos pela conta e só depois conseguimos entrar na sala.
Estávamos tranquilas pois o atendente tinha dito que o filme atrasaria
uns minutos, porém ele deu a informação errada. Então corremos para a
entrada. A arquitetura do cinema impede que pessoas de fora vejam o
telão, então você primeiro sobe escadas para depois descer outras
escadas e encontrar cadeiras acolchoadas e a tela gigante na sua frente.
Assim, eu e minha amiga, ao subir os primeiros degraus, percebemos que o
filme já tinha começado, pois estávamos escutando respirações ofegantes
e gemidos das caixas acústicas. Ao descermos as escadas, avistamos na
tela dois homens nus em completo êxtase, se beijando e se tocando. Deu
para entender claramente também as investidas do personagem que estava
por cima, ao penetrar o personagem de baixo, que gemia. Olhei para minha
amiga e levantei as sobrancelhas, depois de uns risinhos nervosos.
Trocamos olhares sobre qual seria a melhor poltrona e sentamos, um pouco
constrangidas e muito impressionadas com as cenas de sexo.
Estávamos assistindo ao filme "Deixe a luz acesa", que conta a história
de Erik Rothman (Thure Lindhardt), um documentarista em Nova York, em
1997, e Paul Lucy (Zachary Booth), um advogado. Sinopse do
Filmow:
"O que começa como um encontro logo se torna algo muito maior, e um
relacionamento se desenvolve rapidamente. Enquanto os dois homens
começam a construir uma casa e vida juntos, cada um continua a lutar em
particular suas compulsões e vícios próprios. Um filme sobre sexo,
amizade, intimidade e, acima de tudo, amor. Um olhar honesto sobre a natureza das relações em nossos tempos."

Foram 101 minutos vislumbrando um casal cheio de defeitos e qualidades,
passando por situações cômicas, familiares, de superação, e também por
perrengues raivosos com drogas, traição e vícios. Eu ousaria chamar o
filme totalmente de comum (não que isso seja algo ruim, apenas
corriqueiro, normal), se não fosse o fato de a trama se desenrolar entre
dois homens. Foi incrível me deparar com um filme desse tipo, pois ele
me ajudou a enxergar o convívio de um casal gay, algo que eu nunca
experimentei nem vivenciei. É muito diferente ter amigos gays e ter
contato com o dia a dia do casal gay. Até pelo motivo de que geralmente
ninguém conhece o convívio dos casais. Foi lindo atestar a ridícula
normalidade dos personagens, já que a história é totalmente realista.

Portanto, indico o filme aos preconceituosos de plantão e também às
pessoas que se consideram sem preconceito. Provavelmente o primeiro
grupo poderá refletir mais sobre a normalidade de pessoas que se
relacionam com outras de mesmo sexo, e talvez haja a constatação de que
isso NÃO É PROBLEMA DE NINGUÉM, e por isso você devia parar de falar mal
da relação que VOCÊ considera errada de "homem com homem" ou "mulher
com mulher". O segundo grupo, supostamente mais esclarecido, poderia ver
o filme se quisesse apreciar uma história de amor entre dois caras
peculiares, e poderia talvez ter o mesmo insight que eu tive. Gente, sei
que o assunto é polêmico, mas sinceramente, só peço que vocês saibam de
uma coisa: tolerância e educação são a chave para um mundo melhor.
Bom, é isso. Demorei a postar, mas trouxe uma breve resenha de um filme não tão famoso. Espero que gostem e que me sigam no
Filmow, se também forem cinéfilos. Podemos trocar umas ideias por lá!
Imagens retiradas da fanpage do Castigliani Café, do Google e do IMDB, respectivamente.