Conto
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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sétimo e oitavo dias

Peregrinou até achar a casa de um antigo amigo. Estava cansada das horas de viagem. Lembrou de sentar ao lado de um senhor alto e grande. Sofreu com antecipação por saber que teria que acordá-lo todas as vezes que quisesse ir ao banheiro. Malditos banheiros de avião. Dava medo aquela descarga. Na verdade, era uma descarga filosófica. Imagina se todos os problemas pudesses ser eliminados a vácuo, em instantes?

O amigo também estava cansado, mas era da rotina. Atualmente trabalhava mais de oito horas na cozinha do restaurante. Tinha chegado suado e oleoso. Evitou um abraço na amiga estrangeira para não assustá-la. 

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Tomaram banho juntos. Foi natural, como era há uns cinco anos. Riram juntos, fizeram penteados com o sabão do shampoo, ficaram envergonhados quando lavaram as partes íntimas. Ele deu uma rápida conferida nos seios e nas pernas dela, enquanto ela olhava o pênis e as nádegas. Fazia muito tempo que não se tratavam assim. Mas continuavam confortáveis. Estranhos não tomam banho juntos. Foram para o quarto e a excitação deu lugar a um sexo sôfrego, agoniado. Ela não esqueceu de pedir para usar a camisinha, mas ele não tinha. Ela tinha centenas na mala. Pegou todas no Carnaval, quando ainda estava no Brasil. Relembraram o prazer de estar juntos, a simplicidade daquela relação. Sem cobranças, sem brigas. Juntos mais uma vez, mesmo que apenas temporariamente.

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Amanheceram com a casa cheia. A família dele tinha vindo para as férias de Janeiro. As crianças desarrumavam a casa toda e brincavam com quaisquer objetos. Bolos eram dominós. Colchões eram tubarões. Criança sabe mesmo se divertir. Eram um bando de ébrios mirins, sem uma gota de álcool. Pequenas hienas que não paravam de rir. Ou de gritar pelos corredores. Adulto tenta imitar criança às vezes.

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No final do dia, ele mostrou as leituras que faria no ano. Ela criticou algumas obras, enquanto sentiu inveja de uns livros raros que ele possuía. Fizeram um jantar e adormeceram contando histórias. Ela se sentiu amada, a despeito das desventuras dos últimos dias. Pensou que poderiam tentar ficar juntos, alugar um quartinho. Mas nem emprego ela tinha mais... 

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Naquela noite, sonhou com seu amigo/amor ficando com outras garotas, em um grande parque de piscinas. Ele foi ríspido com ela, enquanto brigavam sobre ele falar da pele de pêssego de uma das amigas. E por causa de todas as fotos que tirou das colegas de classe de bikini. Ele estava orgulhoso de fazer parte de algum grupo, ela estava irada por não ser mais a única. Egoísmos deram espaço ao pesadelo que acabou com os dois se afastando, no ponto de ônibus. Ele foi embora, deixando aos pratos uma menina e o carro velho quebrado. O sonho continuou, com a menina entristecida e cabisbaixa. Ela sentou na rua e escondeu o rosto nas mãos. Ficou por longos minutos na mesma posição, até as costas doerem. Sentiu a coluna, mas preferiu se martirizar. Só despertou quando escutou uma música animada, gerada por um violão ali perto. Levantou o rosto amassado e vermelho, e viu o chileno, que mais parecia um mendigo. O chileno se aproximou e sentou ao seu lado, ofereceu um cigarro. Ela tragou, mesmo odiando aquele barato, e iniciou uma conversa. Passaram horas discutindo sobre as passeatas do Brasil, a repreensão policial, a dificuldade de poder fumar maconha hoje em dia. Discorreram sobre as futilidades do homem, e o vício com a internet. Falaram de música: ele citou artistas do Chile, ela enrubesceu por não conhecer nenhum deles. Trocaram dicas de bandas e de lugares para conhecer. Ele falou em amores poligâmicos, e elogiou os lábios da menina chorona. Ela se surpreendeu com a mudança repentina de interesses. Deteve-se à boca do chileno, às rugas de expressão que faziam no seu sorriso. Olhou os longos dreads e se sentiu atraída pela excentricidade do rapaz. Ele disse ter 25 anos, ela estava com 23. O estrangeiro tinha olhos verdes escuros.

Se beijaram.

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Ela acordou no meio do beijo. Virou para o lado e viu o amigo roncando baixinho. Como sempre, achou que seus sonhos eram realidade, então teve dificuldade de discernir sobre o que tinha acontecido de fato. Sentiu necessidade de olhar o celular do amigo, que estava carregando. Mas pensou melhor e sabia que estaria invadindo a privacidade. Não bastava ele dar uma hospedagem para ela? Abraçou o menino, que murmurou um bom dia cansado. Por mais que quisesse, não conseguiu dormir e voltar para o sonho.



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

3º, 4º, 5º e 6º dias

Decidiu sair de casa. Abandonou os irmãos e o emprego. O amor de sempre também ficou para trás. Pegou endereço com o chileno e comprou a passagem no cartão do pai, pois ainda sabia todos os dados (guardados no notebook). Não se importava se haveria arrependimento. Tinha postergado deixar sua vida para trás há muito. Não toleraria mais nenhuma tapa do progenitor. Tinha lido umas merdas feministas, e sabia que não estava certo apanhar desse jeito. Nem se fosse puta. Inclusive nunca tinha dado por dinheiro, só por atração e histórias.

Pegou a mochila rasgada no fundo, todos os livros e as bijuterias. Roupas de menos e dois casacos. Trouxe a polaroide para ver se  ainda funcionava. Se despediu de dois amigos e aproveitou para pedir uma grana emprestada. Largou a faculdade, mesmo que só faltassem seis meses agora. Espero que os hipócritas se fodam, pensou enquanto lembrava dos gays enrustidos. Espero que os de cu virado para a Lua me esqueçam de vez, pensou nos traíras.

Assim, com a ajuda de uma companhia aérea muito eficiente, disse adeus ao país miserável.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Segundo dia

Teve que retornar à realidade. Era por isso que não acreditava no calendário - criaram para iludir as pessoas. Assim como o amor, pensou ainda triste. Recebeu de volta quem estava longe, com frases alegres como "Feliz 2014", "Você parece ótimo!"; trocou conversas, tomou atitudes, resolveu problemas do cliente. Trabalhou com impaciência. Participou de um ambiente em que precisava julgar a competência dos outros. Recompensaria os ganhadores. Lembrou dos últimos acontecimentos e se desconcentrou, não conseguiu acompanhar. Trocou Itália por Austrália. Foi rígida, escondeu a identidade (afinal, quem se importa?). Se despediu do dia cheio comendo muita maionese com sanduíche. Se arrependeu amargamente de ter feito esse pedido. Maionese deu enjoo. Tentou ver o lado bom da vida, e sentiu orgulho de ter, no dia anterior, mantido os princípios. A dignidade de ser quem é. 

Cada um sabe a dor e a alegria disso.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Primeiro dia

Os primeiros momentos foram de um beijo intenso e inédito. Parecia uma previsão do que o ano recém nascido seria. A promessa, no entanto, durou apenas algumas horas - como se tivesse validade de acordo com o nascer do Sol.

Era madrugada e em alguns minutos o céu foi riscado de luzes e estrondosos fogos de artifício. Gritaria e abraços múltiplos, desejos de melhores vidas e dias felizes. Momento propício para se ter bobamente esperança. Instante perfeito para recomeçar tudo outra vez, mesmo que a importância da noite fosse o usufruto do Carpe Diem.

Energéticos para adoçar a vida, misturados a quinhentos mililitros de vodka com muito gelo. Tanto gelo que daria uma garganta inflamada nos dias seguintes. Ou teriam sido os gritos e a vontade de quebrar tudo ao redor?

Risos, fotografias tentando roubar aqueles momentos que nunca mais, em nenhuma circunstância, voltarão a acontecer. Nem se Deus quiser. Quem aproveitou, foi esperto. Foi inteligente quem não perdeu as únicas lembranças gostosas para a areia gananciosa da praia.

Os raios do Sol esquentaram a cabeça de algumas pessoas, detentoras da ética e da moral. Gente com autonomia para criar maniqueísmos, julgamentos e punição para os errantes. Ele até usava um distintivo invisível na roupa, e se orgulhava disso. Viu algumas mulheres com roupas curtas e, apesar da excitação, reprimiu o desejo com um gole rápido no espumante, o qual só tomava em respeito à tradição do seu país. Bando de puta, pensava. Bando de prostituta. Ao citar mentalmente esses nomes, rapidamente enrubesceu pelas lembranças dos tempos em que era adúltero. Mas sobre isso, rezava todos os dias e pagava o dízimo para se sentir menos culpado pelos pecados de outrora. Hoje ninguém mais poderia reclamar, pois se dedicava somente ao trabalho e à família, e por isso era juiz de seu rebanho.

Viu a cria perdendo a cabeça. E perdeu junto com ela. Levou pra longe do grupo, mandou se calar. Cale-se. Mas ela, provavelmente endiabrada, gritava em resposta: Afasta de mim esse cale-se. Ele cuspia a vergonha de ter criado alguém tão fora dos padrões. O orgulho dos méritos da cria se esvaíram depois do espetáculo de horror com passos cambaleantes, o riso frouxo, a vontade de mijar no meio da sua mulher. Parecia uma imbecil, uma doente mental. Que desrespeito com o próprio pai, rei da verdade! Ele continuou na sua árdua tarefa de educar a inconsequente, e a cada vez que mandava calar e não era atendido, batia em seu rosto. Chacoalhava seus braços para frente e para trás, com força, com a permissão de Deus. Borrou o batom, a sombra e o delineador que dava ao rosto da jovem um ar felino. 

Ela apanhou muito.

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Tentaram dar um calmante, uma palavra amiga, um empurrão para sair do show de terror que acabara de acontecer. Era ano novo, Jesus. O que precisava para ter paz nos primeiros segundos disso? Abstinência? Ela gritava sobre como tudo era injusto, perguntava-se que direitos legais tinha, afirmava com convicção que se tivesse um pênis no meio das pernas, não teria passado tanta vergonha. Maldita vagina, maldita história das mulheres ao longo dos séculos. Quem manda ser costela de Adão? Chutou com força a banca de jornal e quebrou a vidraça, enquanto se sujava com o próprio sangue. Depois, riu longamente, como uma hiena, até não aguentar mais e dormir sob os braços do beijo.

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Acordou com dores no braço. Verificou que marcas roxinhas estavam espalhadas nos lugares que antes tinham mãos julgadoras. Ficou triste. Tentou esquecer, deixar a mágoa para um dia melancólico. Comeu sushi de graça, dormiu na casa das sete mulheres, tomou banho de chuva dentro da piscina. Era chuva de novela. Comeu porco, frango, arroz. Quis resumir o dia em descanso, comida e sono. A água da piscina tinha feito tão bem que, quando chegou à casa (hospedagem amorosa, mas temporária), nem se importou em retirar o cloro dos cabelos duros. Dormiu suja.

terça-feira, 9 de abril de 2013

"Se tu soubesse, não amaria mais ninguém"

[Conto inspirado a partir da música "Pelo Interfone", de Cícero. Convite feito pelo André, do Blog QMD]


Ainda é difícil olhar uma foto sua. Prefiro não ver. Nem ler suas emoções naqueles vídeos ébrios que ainda tenho guardado. Nem suas histórias inteligentes. Seu sorriso, enorme e cheio de dentes, parecia puro e não apresentava mal nenhum, ao menos naquela época. O seu argumento, sempre falho quando falava de si mesmo, sempre correto quando falava de quaisquer outros assuntos, faz muita falta. Não o bastante para conseguir tocar novamente seu rosto, e não pensar no mal que me fez (que me faz, esporadicamente). A dor e a amargura que ainda moram no meu peito não crescem mais, graças a Deus, mas permanecem ali, prontas para serem relembradas. Não há médico no mundo que consiga extrair aquela coisa ruim.  

Por vezes acho que preciso de você - me acalmando e dizendo que tudo vai ficar bem, criando oportunidades e mostrando que a vida não é só o que minha mente pessimista vislumbra, e sim que vai muito além do meu egoísmo repleto de sofrimento estreito, estúpido, infantil. Mas as lembranças, aquelas que escapam vez ou outra, sempre dilaceram minha alma e me distanciam de você. Sou fraca, você sabe, sempre soube. O bem que você me fez, frequente e quase diário, se perdeu em algum lugar no instante em que houve o desapontamento. Aquele momento difícil no qual você me ensinou a viver sem criar ilusões das coisas e pessoas. Sem criar a ilusão de rótulos de amizade, amor e ódio. Rótulos não passam de truques da nossa mente, a verdade é bem mais complexa.

Com você, aprendi a não amar mais ninguém.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

My Valentine

Aí dizem que é Valentine's day, e eu não entendo muito a tradição ser no dia 14 de fevereiro, pois sou brasileira, e aqui fomos influenciados pelo santo casamenteiro, santa igreja católica. Apesar disso, lembro das escolas que tinham o sistema de mensagens anônimas. Estudei em muitas, aprendi a ser novata sem medo. Alguns cartões foram enviados para mim, mas só de amigos. Fiquei secretamente feliz de não ter ficado sem nenhuma cartinha. 

Amor é todo dia, não? 

Lá vem aquela raiva estrondosa de datas comemorativas. Relação paradoxal, na verdade. A tradição faz a data especialíssima, mas a cultura do esperar-o-dia-de-comemorar-para-comemorar não parece sustentável a longo prazo. É preciso amar as pessoas como se não houvesse... nada. Só pela delicadeza do sentimento mesmo. Pelo egoísmo de se sentir bem, às custas dos outros - é, amor também é egocêntrico. À custa do afeto que nos proporcionam, do bem-estar. Ser querido pela velhinha da esquina, pelo fazedor de pães, pela vizinha que, quando criança, disse a uma menina de franja cortada (irregularmente) que ela poderia chamá-la de avó. Aí o amor cria mais de uma avó, mais de uma irmã, a exemplo da amiga de trocentos anos, tão fucking distinta de mim, tão amada pelas diferenças. É, ou deveria ser, amor para tudo e todo mundo: mãe, pai, gato, cachorro, país, violão. Namorado. Ou namorada, quem sabe o desejo toma conta? Mas Valentine's day é coisa de namoradinhos, right? A história conta a saga do São Valentine pelo amor. A condenação à morte por ele.

Bem, Valentine's day é coisa de casal, como ia dizendo. Mas aí vem a mania de questionar. Indago: os que vivem a três ficam de fora? E os que têm relações amorosas e até sexuais com bichos? E com mortos (lembrei inexoravelmente do Nicolas)? A delonga é motivada pelo medo do sentimento bom. E, hoje, o receio, a vergonha da manifestação pública. Ser feliz assusta quem um dia já viveu triste. Então penso que amar, no fim das contas, é um ato de extrema coragem.

Em outras palavras,
amo você, Nu.

1 riso + 1 beijo

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

la petite mort

Julia penteia os cabelos, faz um coque em formato de bolinha no topo. Pinta os olhos como os de gato, risca de vermelho os lábios. Põe vestido curto de estampa dificilmente reconhecível e corre para não se atrasar. É resistente. Vai gastar o tempo e dinheiro em cidade universitária, à noite, com estranhos, afeminados, afetados. Ingere gelatina verde, sente sabor adocicado seguido de ânsia de vômito. Promete não repetir a dose, todavia logo enche a boca de gummi beares repletos de álcool.

Amigos ao redor balbuciam, contudo nem estão ali, estão procurando outros amigos, mexendo nas redes sociais pelo 3G. Aqueles já não têm nada a acrescentar. Fuma cigarro azul, fino, sente o terror de um possível futuro câncer e jura não tragar mais, só em ocasiões especialíssimas. Lembra-se de Augustus, sente saudades da ficção. Não escuta nada nem ninguém em volta, só as batidas dúbias daquela música ruim, feita apenas para vender peitos e bundas e artistas sem coração. Ela até tem coração, muitíssimo obrigada, mas a cada dia que passa fica mais frio, bate menos, permanece mais distante dos que ama. 

É o câncer de pulmão que não irá se aproveitar do corpinho magro, graças a Deus. Pena que outro já se instaurou, a partir de memórias nojentas e hipócritas. Bebe sete latas para contabilizar o gasto da festa. Bebe rapidamente mais cinco, pois agora ela acertou na matemática. Ebriedade a faz pensar em como são estúpidos, como estão estagnados, enganados. Nada é real, só aquela semente que a fez mais vulnerável ainda. Coração continua frio, porém sensível. Quer chorar, mas está numa festa. Morre de amores e ódio por aqueles que a sufocaram de tanto rir e afogaram de tanto chorar. Quase a mataram de vez (lembra-se  em meio a risos frenéticos e medonhos)! Lágrimas rolam só para mostrar o quão fraca ainda é, o quanto ainda lembra. Finalmente o efeito da semente a faz sentir prazer em estar viva, cabe ali quase um orgasmo existencial, a despeito do horror, do desapontamento. Se o peito ainda pulsa, pensa olhando o céu, a esperança de júbilo não morreu.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Desejo e caos


Houve um dia em que tudo o que eu conhecia simplesmente desmoronou. Após as conversas esclarecedoras de ambas as partes, senti a dor devorar o que tinha dentro de mim, e a vontade súbita que tive foi de cometer alguma besteira suicida. Estava pela primeira vez em tantos anos de maturidade tendo desejos de morte, algo que eu sempre considerei o cúmulo do egoísmo.

Aconteceu rápido, e as revelações duraram 24 horas. Foi algo clichê, digno da famigerada e odiada novela interminável Malhação: o melhor amigo e minha mulher transando enquanto eu viajava. Meus amigos machistas irão rir de mim, já posso escutá-los nitidamente. 

Quando voltei da Inglaterra, ainda maravilhado com o frio e todas aquelas pessoas bonitas, com muitas roupas devido ao clima e tantos lugares extraordinários para se ver, fui recebido pela garota dos meus sonhos. Ela estava lá, linda como sempre, de cabelo preso em um coque - devido ao calor da minha cidade -, com as franjas desfiadas cobrindo um pouco os olhos cor de mel. Estava distraída, e sua boca vacilava um pouco. Decerto estava estranha. Apesar disso, minha alegria em compartilhar as histórias da jornada britânica nos envolveu em diálogos, e logo ela estava sendo ela mesma de novo. 

Rimos e caminhamos juntos à saída do aeroporto. Ela tomou a atitude de dirigir, apesar de não gostar muito, visto que eu estava cansado das treze horas de voo e pela hora da madrugada - eram 2 horas da manhã. Não me olhou nos olhos sequer uma vez.

Quando chegamos à nossa casa, havia uma refeição dedicada a mim. Ela não gostava de cozinhar, então a comida era realmente uma forma de demonstração de amor. Puxei-a com um rápido movimento e a acolhi em meus braços. Demos um beijo longo e amoroso, aquele que só ela poderia me dar, considerando a lista imensa dos outros relacionamentos que já tive. 

Não foi além disso, para minha frustração. Eu já estava começando a ficar excitado simplesmente por estar novamente com ela, talvez pelas duas semanas que estive fora, mas ela começou a se afastar de mim. Disse que precisava contar algo que tinha feito na noite anterior. Eu não imaginei que fosse tão grave pois não esperava isso dela. Marília tinha uma característica forte em ser comedida, e passiva. Não costumava tomar atitudes e não tinha precedência parecida com o fato revelado: havia transado com meu melhor amigo na noite passada.

Permaneci estupefato por longos minutos. Apesar de eu ser bastante falante normalmente, ali me encontrei em uma situação nunca antes vivida. Não consegui falar uma palavra. A cultura infernal do corno nunca havia me atingido, isso não era o maior problema, pensei. Tive que escutar Marília afirmar que não tinha sido nada, que não estava apaixonada, e que ainda me amava, etc. Mencionou o estado alcoólico em que estavam, e que isso tinha dado coragem a ambos. Mas o maior problema foi a surpresa: eu não esperava algo assim nem em mil anos, sobretudo deles, especificamente.

Conhecia ambos, trocava confidências. Eu estava há quase sete anos com Marília e a amizade com Pedro tinha lá seus três anos, se não me falha a memória conturbada com os acontecimentos recentes.

Sempre fui um solucionador de problemas mas, ali, estava encurralado com meu silêncio. As lágrimas rolaram sobre meu rosto, e eu chorei baixinho, enquanto Marília dizia coisas confusas e inacreditáveis. Acabei resgatando meu lado ruim: insegurança. Quando finalmente consegui falar, pedi os detalhes da transa. Ordenei, em resposta ao que tinha acontecido. Eu merecia pelo menos alguns esclarecimentos, e na hora, julguei interessante me martirizar um pouco mais, sabendo que Pedro havia tocado nos longos cabelos - e certamente em outros lugares - da mulher que eu planejava casar e até ter filhos (quebrei paradigmas com ela, já que era tão sensacional. Até os 25 anos tinha plena certeza de que seria um Don Juan eterno. Ela entrou na minha vida para mudar tudo isso). Fui baixo e quis saber detalhes da penetração, se tinham feito sexo oral e anal. Marília soluçava e por vezes relutava, mas eu pedia cada vez mais detalhes de toda essa merda. Eles destruíram minha confiança, eu não sabia o que fazer sem ela, eu não conseguia enxergar um amanhã sem a sua presença. Infelizmente eu era assim, perdidamente apaixonado. E depois de saber daquilo, não consegui permanecer numa linha de pensamento claro e racional.

De supetão, deixei ela falando sozinha e saí da sala, com a visão um pouco distorcida pela quantidade de lágrimas que insistiam em continuar existindo. Peguei as chaves do carro e corri em direção à garagem. Saí cantando pneu e incomodando a vizinha chata, que odiava quando eu fazia isso. Hoje eu tinha uma razão mais do que justificável, senhora.

Em poucos minutos, devido à velocidade altíssima que arrisquei, cheguei à casa de Pedro, e quando ele abriu a porta entendeu tudo. Começou a pedir desculpas enquanto eu invadia sua casa. Pedi também detalhes de tudo o que tinha acontecido, e ele repetia diversas vezes que estava arrependido, e que faria qualquer coisa para ter a nossa amizade de volta. Eu não podia acreditar que ele faria algo assim comigo. Marília era bem ciumenta, e eu sempre tive amizades confusas. Talvez ela tivesse algum motivo... Mas o Pedro? Ele sempre fora tão puritano que me dava raiva. Não arriscava demais e era comedido, racional. Transou com a minha mulher enquanto eu trabalhava viajando. Dois filhos da puta que eu amava.

Quando ele detalhou que, após terem transado, tinham ficado longos minutos abraçados na cama, pulei em cima dele e bati até perceber a idiotice que estava cometendo. Ele não revidou, e do seu nariz brotou muito sangue, acho que finalmente utilizei bem aquelas aulas de boxe que fiz mas larguei em pouco tempo, por preguiça.

Fui até a casa do Pedro para escutar da boca dele a merda toda. E, além de confirmar, deu os detalhes que Marília supos achar melhor omitir, para assim me proteger. 

Saí novamente de forma súbita, e entrei no carro. Comecei a dirigir para bem longe enquanto ouvia, já baixinho por causa da distância, as desculpas de Pedro. Enfia essas desculpa no cu, pensei.

Apesar de eu compreender os dois, pessoas brilhantes e, por isso, mais do que normal ter acontecido um sexozinho descompromissado, não conseguia conceber isso vindo logo deles. Enquanto passava alguns sinais vermelhos, já que estava de madrugada, estava absorto, com os pensamentos desenvolvendo-se como um filho dentro do ventre da mãe. Minha ideia era mórbida, mas parecia uma solução bastante razoável para o momento. Eu tinha desacreditado em tudo há poucos minutos, e minha esperança no mundo havia sido assassinada com aquelas duas pessoas fazendo algo totalmente surpreendente e negativo para mim. Eu não merecia mais viver.

Sei que soa bastante desagradável, e sobretudo doentio. Além do mais, eu também tinha minha família, apesar de não vê-los há alguns anos. Pensei em como os caras do trabalho iriam se referir a mim: "Aquele puto foi um covarde, acabou com a vida por causa da mulher e do amigo", ou alguns, aqueles merdas preconceituosos, iriam logo me chamar de "viado", com algo na linha de "Aquilo dali era viado. Se matou pelo motivo de a mulher que ele comia, e o cara que comia o cu dele, terem se divertido com sua ausência".

Enchi-me de especulações acerca do que aconteceria se eu não estivesse mais aqui. O telefone tocou, e era o Pedro, e trinta segundos depois o outro, o do trabalho, chiou irritantemente: era Marília, só ela sabia desse número, salvo o pessoal da empresa e meus clientes.

Distraí-me ao olhar ambos tentando estabelecer um contato comigo e, instantaneamente, joguei os celulares pela janela. Foi algo estúpido de se fazer, pois a porra de um deles era um Iphone. Quando se está nervoso, coisas ruins podem acontecer. 

Continuei minha viagem e acho que cochilei uns instantes, pois o carro me assustou umas três vezes e eu quase consegui realizar minha ideia fúnebre. Estava dirigindo sem rumo, quando decidi voltar tudo de novo e me despedir de Marília. A outra solução que achei foi um pouco mais coerente: me afastar dela. Terminar tudo o que tínhamos construído. Devolver a porra do anel que eu estava me preparando para dar. Em nenhum momento eu parei de chorar, isso faz de mim uma garota? Não, seu machista de merda. Eu sou muito homem para não fazer nada com eles, com exceção de umas porradas que o Pedro mereceu, e sair da vida dos dois. Acho que estou atrapalhando. Porra, que insegurança.

Estava quase chegando à nossa casa, e nesse instante a madrugada, de uma hora para outra, ficou com uma neblina estranha. Fiquei com frio, a despeito de isso ser raro aqui nessa cidade infernal e quente. Eu estava triste e muito cansado, afinal já tinha passado das cinco horas. Ainda estava muito escuro.

Encontrei-a sentada na varanda, com o celular no colo, as mãos no rosto. Chorava freneticamente, balançando o corpo de forma ritmada. Sempre odiei vê-la chorar, dava mais vontade ainda de continuar com meu dilúvio. Que merda, Ma. Como pôde fazer isso comigo? E nosso filho, que teria o seu nariz, a minha boca, e nossa inteligência? A gente iria ensinar o pirralha a escutar os clássicos do rock mundial, a gente já iria incentivar o aprendizado de línguas, de instrumentos, de teatro. Você lembra disso, Ma?

Eu listava todas as nossas perspectivas aniquiladas, e ela escutava chorosa, mas em silêncio. Não rebateu vez nenhuma minhas palavras. Levantou-se e passou direto por mim, sem dar atenção. Eu fiquei puto. Ela fode com meu amigo e não consegue escutar o meu desabafo? Corri atrás dela, gritei bobagens e continuei a indagar se o pau do Pedro tinha mais sabor do que o meu. 

Ela continuou calada, e só conseguia chorar. Eu acabei me descontrolando e ordenei, xingando-a, que ela olhasse em meus olhos, pelo menos uma vez depois disso, mas ela ignorou. Percebi que tinha sido muito cavalo, e pedi desculpas pelas palavras usadas. Era estranho, na verdade parecia que ela não estava me ouvindo direito. Talvez fosse o transtorno de estresse pós-traumático que se abatera ali, sobre Marília. Aproximei-me dela e sussurrei que a deixaria, mas que nunca sentiria um amor igual na minha vida. Ela retribuiu as palavras, fazendo uma imitação do que eu dissera.

- Meu amor por você é irrevogável, Vitor. Tenho certeza de que nunca sentirei algo assim por ninguém.

Nesse momento, Marília deu um sobressalto pois o celular tocou estridentemente. Agora já era de manhã, e os pássaros da frente cantarolavam alegremente, apesar de estar um clima terrível em casa. Bando de pássaros sem coração.

Marília se jogou no chão de um jeito estúpido após ouvir alguma coisa no telefone. Claramente machucara o joelho esquerdo, e talvez por isso urrava de dor. Nunca tinha visto uma pessoa tão triste na minha vida. Sempre achei Ma um pouco dramática demais, e aquele joelho não deveria ter quebrado ou coisa parecida para estar daquele jeito. Ela começou a falar coisas sem sentido e eu fiquei confuso. Dizia, aos prantos, quase de forma ininteligível:

- Não pode ser! Não é verdade! Ele não pode fazer isso comigo! Ele não pode se vingar desse jeito! Eu nunca vou perdoá-lo...

Eu comecei a compreender. Mas isso não podia estar acontecendo. Eu parecia não estar mais conectado àquele lugar... Senti-me estranho, com náuseas nunca experimentadas antes. Não podia ser. Tentei lembrar do que tinha feito, mas comecei a me distanciar dali, em mente. Algo muito forte direcionou meus pensamentos para o momento em que devo ter cochilado no volante. Eu comecei a sentir uma leveza insustentável e, de uma forma singular, senti que estava desaparecendo...

06:19
Alô? Senhora Mariana? Bom dia, infelizmente tenho uma notícia ruim. Você está com alguém aí? Você tem familiares? (...) Seu companheiro sofreu um acidente terrível. Não houve nem tempo de ser hospitalizado, o impacto foi muito grande. É provável que tenha cochilado na direção e seu carro se chocou com outro, que ultrapassou o semáforo vermelho. Não encontramos sinal do outro motorista, que aparentemente fugiu sem prestar socorro, mas estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para puni-lo. Sinto muito pela sua perda.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Carta entregue

Garoto franzino, deitado na rua. Estava sozinho pois seus amigos (espero nunca o tê-los) o deixaram. Vagava com o olhar os primeiros transeuntes da Conde da Boa Vista. Luz (já) forte do Sol de Recife, início da manhã. Tentou raciocinar qual ônibus pegaria enquanto procurava nos bolsos alguma moeda para se hidratar - a noite tinha sido de muitas cachaças e promessas desfeitas. 

Enquanto se remexia em sua calçada, sentiu um vento gostoso, que simultaneamente trouxe um papel para perto dele. A princípio ficou feliz, pois confundiu com uma cédula capaz de comprar sua necessitada água, mas ao apertar os olhos pequenos, visualizou algo raro: uma carta.

De supetão, ajeitou-se sentando no meio-fio, e leu em voz baixa parte do que dizia:

...Vamos aproveitar a sorte de termos nos conhecido, mesmo nessas circunstâncias. Vamos pensar menos e fazer mais, afinal nos damos bem. Estou criando dramas, pois isso também faz parte do meu ser. Mas não está dando resultado, não está sendo benéfico para nenhuma parte. Então vamos aproveitar nossos momentos juntos, mesmo sabendo que são efêmeros, mas o que não é nessa vida? Vamos deixar a tristeza de lado, quero você numa outra dimensão. Vamos sonhar juntos quando tivermos oportunidade? Vamos nos unir por pensamentos livres e libertinos? Vamos nos guiar por um tipo de amor que eu nem sabia que existia! Fico tão feliz com você. Que tipo de pessoa afasta a felicidade? Vamos ser os personagens de uma fantasia, vamos transformar nossas histórias em um livro. Vamos, venha comigo. Pegue a minha mão, acaricie meu rosto e fique um pouco mais baixo para eu te abraçar forte. Quero senti-lo perto de mim. E em mim também. Vamos aproveitar as folgas, que serão os dias que poderemos nos ver. Não, não pare de me acariciar com as suas poderosas palavras. Você me acorda com elas. Depois de ouvir suas gravações ou ler suas escritas, já não consigo mais dormir, fico com vontade de reler ou de qualquer outra coisa, menos continuar a dormir. Fico com medo de perder tempo,  não quero perder tempo, só se for para estar com você...

Não quis mais continuar. O garoto, apesar de ainda bêbado da noite anterior, estava lúcido. Pensou demoradamente sobre o assunto, e concluiu como o amor (ou a ideia dele) pode ser cruel, enganoso e doloroso: dopa de felicidade inquestionável o indivíduo contaminado - com muitas ilusões e promessas, vide carta - mas incorre em sequelas verdadeiramente profundas, e (infelizmente) várias vezes pungentes.

Apesar de claramente sagaz, pegou um ônibus errado e cochilou nele, chegando a um bairro totalmente desconhecido da cidade. Entrou em pânico e temeu por não conhecer nada, ao vislumbrar sua volta. 

Percebi que o tal menino falou de amor com uma prioridade inexistente. Amor pode ser tudo. O teor negativo que ele deu a essa força colossal, era por ter medo do desconhecido. Ele era um pessimista ébrio.

Afinal, entendi: O amor é um negócio cheio de surpresas de toda natureza. É coisa de quem está vivo. É para os corajosos que aceitam entrar em um mundo desconhecido. Ou em um bairro qualquer. 


sexta-feira, 9 de março de 2012

Micro Choro


Ela se ajeita e, enxugando as lágrimas, começa a se desvencilhar dos braços dele para então vociferar:

Minto. 
Todo dia. 
Sabe aquela pergunta cretina que você faz? A que todos fazem? "Você está bem?" Sim, claro. É óbvio que estou incrivelmente bem.
O uso da palavra incrível foi claramente proposital pelo fato de eu respirar ironia. Entenda: Depois de você me cativar e me deixar, imediatamente em seguida - é bom salientar - significa que estou bem, só que ao contrário.
Não estou nada bem.
Não consigo ver meu erro, além é claro de quando me permiti. Deixei você entrar e bagunçar tudo. Agora está saciado e não sente mais amor. Nem paixão. 
Nem absolutamente nada. 
U m a p e d r a
Prometo não tropeçar outra vez.

Ele a retoma pelos braços e pede um último beijo.

Concluo, de soslaio: É da natureza humana ser cruel.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Conto do primeiríssimo dia

         As primeiras horas do dia foram compartilhadas com pessoas maravilhosas, cada uma com um perfil distinto e incrível. Minha mãe iluminava a praia, e mesmo com o apagão que acontecera, ela distribuía luz para todos que estivessem presentes. Rodrigo exibia delicadeza e amizade, aos meus olhos, e eu me sentia ótima por estarmos numa sintonia tão boa. Renata e Fernanda chamavam atenção de muitos olhares, com suas formas encorpadas e suas roupas curtas na moda. Eu via ali minhas duas irmãs menores, e não deixava de lembrar e repetir para mim mesma: “como já foram pequenas e inocentes”. Hoje, esbanjavam sagacidade e vontade de se divertir como quisessem. E, no canto, com o noivo ao lado, estava Marília, tão linda com seu vestido já usado, todo florido e com um decote invejável. Nossos olhares eram tão sinceros, e eu me sentia segura tendo uma pessoa daquela ao meu lado por mais de dez anos, sem deslize algum. Todos nos abraçamos e a ordem não importava, só o fato de estarmos juntos e desejando honestamente um ótimo novo ano já era fundamental.
Outras pessoas passaram pela minha mente enquanto tomávamos champagne já na temperatura ambiente. Eu sabia que encontraria meu amor em alguns instantes e isso me confortava, em parte. Também gostaria de encontrar outras manifestações de afetos naquela madrugada. Nos primeiros minutos de 2012, após abraços acalorados, as mulheres da minha vida me arrastaram para o mar, todas crentes de que as sete ondinhas eram necessárias. Não entendi bem e não lembrava qual era o objetivo disso, mas mesmo assim fiquei com elas, apesar de ter medo de me molhar muito. Papai ligou nesse instante, e enquanto gritava a cada onda pulada, tentava entender o que ele dizia, lá de uma praia não muito distante. Sua voz era felicidade, mas suas palavras eram quase incompreensíveis. Apenas consegui entender os votos sinceros de que este ano será muito melhor do que os anteriores e, quem sabe (pedi para ele repetir cinco vezes, e não uso hipérboles), haja verdadeiramente uma viagem para Fernando de Noronha. Mentiras sinceras me interessam muito, pensei.
Quando terminamos de rir como hienas e desejar felicidade às almas presentes, fotografamos alguns momentos, fazendo poses parecidas, e depois continuamos, deixando Mamãe e Rodrigo para trás. Eles ficariam sozinhos por mais um tempo e logo voltariam para continuar o ano novo seguros em casa, do jeito que gostam.
Começamos a desbravar os calçadões, repletos de gente de branco e com bebidas nas mãos. Todos pareciam felizes, à sua maneira, e eu também me sentia alegre. As músicas, tão variadas, eram diferentes a cada dez passos. O carnaval, que só será daqui a alguns meses, já estava sendo cantado na praia de Boa Viagem. Com a câmera em punho, filmei alguns segundos de cenas de gente dançando e cantando o Galo da Madrugada e Madeira do Rosarinho. Juro que não comecei a desejar o carnaval, pois quero aproveitar cada dia como se fosse o último. Olhava rápido para as pessoas, pois não precisava encontrar ninguém por acaso. Na verdade, queria olhar para todos a minha volta, tentar entender o que pensavam naquele momento. Quanta ousadia e utopia!
Andamos bastante, e tivemos que esperar pessoas de saia rasgada e tatuagem nas costas. Recebi poucas, mas boas ligações. Uma delas me deu motivação pra continuar a buscar conhecimento e sabedoria nessa vida. Pessoa linda que disse que me amava no telefone. Não pude deixar de ficar toda boba e emocionada. E, também por isso, comecei a ficar sem palavras pra dizer, queria ser recíproca, mas ela acabou me desarmando com tanta beleza. Ela acariciou-me, tão distante, com palavras muito gentis. A vida é dura, mas existem esses momentos de delicadeza e amor e não dá outra: a gente fica todo derretido. Depois meu amor me ligou. Amor oficial. Todo agoniadinho com as palavras, mais sabe demonstrar coisas do que falar. Mas tentou, e falou o esperado. Senti-me naturalmente segura e feliz por tê-lo pertinho de mim. Fisicamente naquela hora, ele ainda estava a um ou dois quilômetros, mas isso não era problema.
Continuamos e de repente uma do grupo quis se separar, partindo meu coração. Realmente não somos o bastante para as pessoas, e isso é fato. Temos que saber lidar com isso. Mas quando as pessoas partem cedo, a gente chia mais do que o normal, e fica emburrada, triste e chata. Fica chata até o outro dia, inclusive. Não atende às ligações das pessoas e ainda lê a mensagem, mas não responde – por falta de crédito e de vontade. Com muita dorzinha no peito permiti que se afastasse de mim, e ficasse toda a madrugada e a manhã do novo ano com seus outros amigos. Amigos recentes, mas, nem por isso, indignos da sua presença. Eu que não fui digna, inferi. Pois bem, continuamos a andar. E, depois da primeira ligação do meu amor, houve outras, meio cansativas, que tentavam se encontrar naquela multidão.
Quando finalmente chegamos à frente do prédio mais célebre daquela avenida, ia ligar para o menino, mas ele me achou primeiro, no meio de outras pessoas de branco. Abraçou-me com carinho e me deu um beijo rápido, respeitoso. Odeio as atitudes comedidas desse menino, mas também amo; é complicado.
E o objetivo da noite foi alcançado. Vimos também a família do meu amor, quatro mulheres com bebidas nas mãos, dançantes, felizes e sem desmanchar os sorrisos no rosto. Chamavam a atenção de todos os homens que passavam. Riam alto e conversavam também. Para juntá-las bastava pegar a câmera, pois estavam ávidas por fotografias. E ébrias, diga-se de passagem. Precisavam eternizar aquela algazarra. Novamente meu telefone tocou e desta vez uma pessoa querida falou comigo, talvez até pela primeira vez, ao telefone. Achei tão legal e naquele momento o desejo de visitá-los cresceu. Sugeri e logo fomos invadindo aquele mundo de gente. Esbarravam em nós, meninos e homens eram ousados a ponto de nos puxar ou falar algo deselegante, pessoas nos analisavam com olhos bêbados ou nem nos viam.
Em pouco tempo chegamos no 4016, já nas primeiras horas de 2012, e não houve problema ao entrar. Logo os vi, Joana, um pavão, Antônio, ardendo em fogo com sua camisa vermelha. Nada foi oferecido, só a entrada e conversas soltas, e, é claro, desejos de um bom ano novo. Não podiam faltar. Nem mesmo nos mais loucos dos corações. Havia muita gente para dar atenção. Já éramos figurinha repetida, pensei não tristemente, só constatei. Por isso ficamos lá à nossa própria diversão, Daniel e Fernanda sorrindo e conversando da forma mais boba possível. O Whisky tinha feito bem àquele menino. Fernanda, de poucos anos, ficava bêbada só com os outros, e pude ver como era influenciada, como quase todos, pelas pessoas ao redor. Joana fumou um cigarro e Fernanda depois comentou secretamente, com surpresa, o ato considerado errado. Ela ainda era inocente, afinal de contas. Minha irmãzinha. Eu sabia que havia resquícios disso na minha irmã caçula.
Se não havia conversas nem atenção para mim, eu só podia fotografar. Até agradeci em silêncio. Estava ali, entrando cada vez mais em mim mesma, ficando bem com minha presença, minha própria solidão em uma praia com milhares de pessoas. E isso não era ruim, era vitorioso! Fotografei segredos, cenas em movimento, desatenções. Fotografei os bonitos e os feios, e feios se tornavam bonitos na imagem, bonitos feios. Achei magnífico, continuei a gelar os momentos. Que poder era esse?
O clima, apesar de repleto de gente bela, maquiada e brilhosa, já era tedioso, e as crianças Daniel e Fernanda precisavam sair dali. Eu também morria de sede e o desejo era água, nada mais. Despedimo-nos do casal Paula e Eduardo (Paula que tinha estimulado esse encontro com uma ligação inédita), mas quando fomos nos despedir do outro casal, demoramos um bom tempo para achar alguma brecha, pois estavam numa conversa fervorosa com alguma parenta bonitinha de Antônio. Não conseguimos esperar. Deixamos o prédio 4016 e fomos ao mar!
O céu estava muito bonito, não parava de me seduzir. Queria roubá-lo pra mim, com seus tons inconstantes e tênues. Rapidamente se moldava às primeiras horas do dia e as luzes já queriam irromper no horizonte. Indo pelo calçadão, encontrei amigos que me fizeram tão bem no colégio. Amigos que competiam comigo, conversavam e me davam carinho. João me abraçou dando aqueles apertos familiares. Mais de uma vez agradeci pela atenção que me dava, tão parecida com a de anos atrás. Foi verdadeiramente emocionante. O tempo nos afastou, mas continuávamos nos tratando bem, com naturalidade. Victor continuava um grosseiro que fingia não ter coração. E, é claro, não me deixava falar. Quanta saudade daquela altura toda! Saudade de vê-lo todos os dias tagarelando. Mais uma vez os eufóricos Daniel e Fernanda não podiam esperar minhas conversas que pareciam não ter fim. Cedi às vontades dos agoniados, e finalmente fomos em direção ao mar.
Fernanda não hesitou em mergulhar nas águas mornas. O vento era gélido, mas não importava para ela. As histórias mais tarde seriam melhores contadas, imagino. Daniel também a acompanhou, e eu achei estranha e ao mesmo tempo fofa toda essa aproximação dos dois. Ele não foi tão corajoso e só molhou as pernas. Mas ficou lá, brincando. Estavam longe de mim, divertindo-se como crianças. Só podia fotografá-los. Era só o que eu podia fazer. Deleites momentâneos. 
Ainda encontramos três antigos colegas. Mateus, Pedro e Marcos. Faltava alguém ali, e eu não deixei de notar sua ausência. Acho que já é uma ausência de um bom tempo, mas, o que sei da vida dele? Nem mais o tenho nas redes sociais. Fiz questão de removê-lo. Não falava mais comigo, desde o término infantil. Sempre nutri a vontade de tê-lo novamente como amigo, mas as coisas, sabemos, são complicadas. Nós somos complicados. Nunca mais o vi. Meu primeiro namoradinho. Moramos na mesma cidade, mas nunca o vi, por acaso. Se fosse Marília falando, era o destino. Não acredito nisso, só acho que não ocorreram coincidências conosco. Ou talvez ele já tenha me visto, mas se escondeu pra sempre. Enfim, deveríamos saber medir o impacto que causamos nas pessoas.
Não estava tão à vontade ali - talvez pelas lembranças - e logo continuamos a jornada na areia. O Sol já se mostrava e iluminava a todos que não tinham sombra. Reencontramos a família de Daniel e ficamos ora na rua, ora na areia. Fernanda, de propósito, desapareceu. Quando a encontrei, e eu já estava enfurecida, escutei mentiras de que tinha me avisado e verdades de que alguém parecia ter passado no calçadão. Ela sabia que não poderia perder tempo comigo. Seu tempo agora quer ser gasto com outrem. Ela não hesitou, foi sem medo. Mas não encontrou nada.
Com o recente episódio, comecei a me preocupar a ponto de ligar para a que se separou do grupo. Ela já deveria estar em casa, mas eu duvidava bastante. Liguei diversas vezes até meu coração mesclar entre desespero e raiva. Daniel, com uma cara engraçada, tentava me animar com os olhos. Eu precisava de mais, queria palavras e atitudes. Mas sei que era aquilo que ele podia me dar no momento. Aceitei. Beijei sua boca gordinha e rosada. Beijaria mais e mais, mas ele, mesmo bêbado, parecia uma menina rejeitando um garoto safado. Parei. Voltei à minha responsabilidade. Ele estendeu o celular e, depois de ter negado várias vezes, num momento de orgulho, aceitei e liguei para a outra operadora da menina. A operadora que ela usa com os amigos. E desta vez pegou. Ela só estava com esse chip e é claro que o único que eu poderia ligar não estava com ela. Ela também não podia perder tempo comigo. As pessoas não podem perder tempo com as outras, só se isso for de seu interesse.
O veredito não me agradou, mas a vida é assim, dura. Já dizia o cara que sabia como ninguém humilhar e, logo depois, cheirar um ralo podre. Numa praça, ela passava a manhã do novo ano com alguém também novo, especificamente um rapaz. E logo ela que dissera que não faria isso. As pessoas sempre podem fazer o que dizem que não vão fazer. Não se engane, elas são fracas. “O espírito é forte, mas a carne é fraca”. Ele a levaria em casa e eu precisava acreditar que seria isso mesmo. O destino dela já não estava em minhas mãos e mesmo assim sentia-me responsável por qualquer coisa que a acontecesse. Fiz cara feia e o Sol jogou raios na minha careta. Tirei uma foto e me assustei com as rugas. Elas sempre me assustam. Pensei em fazer um pacto como Dorian Gray, mas ainda não tenho coragem. E, além do mais, eu já seria um quadro bem sujinho.
Finalmente a sensatez invadiu um cérebro e, diante de bêbados descontrolados e garrafas de vidro sendo quebradas no chão, incessante e incompreensivelmente, fomos convidados a ir para casa de carona. Nessa hora o céu não mais preenchia o vazio que eu sentia – a fome. Fiquei feliz em andar mais para ir dentro de um carro e chegar à minha geladeira de sobras deliciosas. Fomos andando e fizemos o caminho que costumava ser o do antigo apartamento de Daniel. Quanta nostalgia. Quanta beleza naquele tempo, quantas memórias, proibições. Nos encontrávamos na praia, nos beijávamos, nos abraçávamos. Carícias de jovens inexperientes. Eu sentia aquela timidez dentro de mim. Era tudo muito encantador. Eu criava amor para nós dois. Tanto amor que ficava chato, quando eu tinha acessos cegos de ciúme. Hoje não mais.
O carro veio lotado e feliz, com as lembranças recentes. Na minha rua, o carro parou, e eu beijei pela última vez, naquele dia, meu amor.
Cheguei à casa faminta, mas preferi um banho antes. Esperei a água doer nas costas, mas infelizmente ela era fraquinha. Aliás, eu também. Eu era fraca, e continuaria fraca, em pleno 2012.         
  


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Alter ego ataca

Era um dia quente em Recife e eu voltava para casa de ônibus. Certa hora, o motorista, ao perceber o sinal vermelho, parou devagarinho, quase na faixa de pedestre. Minhas músicas acariciavam minha mente quando olhei pela janela suja e vi um homem aparentemente velho em seu apartamento pequeno. Estávamos a vários metros distantes e por isso ele era pequeno para mim. Através de uma grande abertura, que parecia ser o local de lavar roupas, o senhor mantinha um movimento rápido de vai e vem com seus braços nus. Eu só podia ver da altura de seu peitoral até o teto do cubículo. Ele estava sem blusa e sua boca se mexia rapidamente, era provável estar mantendo uma conversa aos gritos com alguém. Refleti por segundos a vida que estava diante de meus olhos: uma rotina simples, um possível tanque e alguém para esfregar alguma roupa. Normal, normal.

Mas meu alter ego não deixou passar despercebida uma cena desavergonhada. O velho homem poderia estar gritando por seu amor falecido, ou por sua amante, ou suplicando por outro homem, quem sabe, ou, pra manter a tradição, claro, podia estar corroendo-se de amor pela sua digníssima esposa, mãe de seus quatro filhos. Ali, ele poderia estar acariciando algo que talvez nem usasse mais, ou só de vez em quando. Ele entrava em sintonia consigo mesmo. Tocava profundamente em si. E achava que estava sozinho, mas lá estava eu, de olho.

Parei de observá-lo e enrubesci com os pensamentos. Logo mais pensei: O que você faria se ninguém pudesse por os olhos em você?

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Paternidade

     A menina chegou uns minutos antes do pai. Jogou sua bolsa na cama, alguns objetos se espalharam até rolar para o carpete verde. Ela sentou-se, inspirou o ar seguro de seu quarto e passados alguns segundos na escuridão, resolveu levantar e se preparar para dormir. Já estava organizando os afazeres na cabeça, como fazia de costume: tomar banho, fazer uma limpeza no rosto, comer uma fruta, escovar os dentes, arrumar a bolsa para o dia que estava pra nascer. Seu pai chegou, no momento em que ela saia do quarto, após ter arrumado mentalmente seus deveres pessoais.
-Olá, Pai!
     O silêncio de poucos minutos foi quebrado com o barulho da televisão: o controle já estava nas mãos velozes do pai. A garota, observadora, viu o homem tão conhecido jogar o controle remoto no tapete, tirar os sapatos, afrouxar a gravata. Viu seu ar cansado desabando no sofá.
     Ela sentiu vontade de trabalhar mais e estudar mais pra dar a vida relaxada que este homem nunca teve. Ficou um pouco emocionada por pensar no quanto ele ficaria feliz em morar numa casa de praia, viajar semestralmente, trabalhar só de consultoria, já que nas veias da família o espírito workaholic era vital. Desde que tinha cumprimentado o pai com um recatado “olá”, ficou encarando aqueles olhos, enquanto sonhava o sonho dele.
     Porém ele não a via. Não conseguia enxergá-la (estranhamente já há algum tempo). Ela se desesperou por esperar tanto tempo por um simples olhar, e falou um pouco desconcertada:
-Pai, você nem olhou pra mim!
     Ele ainda hesitou alguns segundos por estar concentrado em se despir e ver o noticiário até encontrar os olhos de sua filha:
-Amanda, estou cansado, estressado.
     Amanda murchou, sentiu saudade de amor. Percebeu que ali não era mais seu lugar, percebeu que já pertencia ao mundo. Liberou suas asas inexperientes, esfriou o coração e voou para bem longe.


© Escreva carla, escreva
Maira Gall