Veja como é simples, em apenas seis etapas, perder as estribeiras:
- Ser quase atropelada duas vezes em um mês, uma vez por um carro e outra por uma moto, já que motoristas e pilotos não aprenderam o significado do sinal vermelho ou da importância da utilização da faixa de pedestres pelos pedestres;
- Sentir a indiferença de coleguinhas queridos sem motivos aparentes;
- Andar de ônibus e sofrer com bolsas na cara (enquanto senhoras passam ao seu lado), esfregões de senhores (necessidades masculinas), desconhecidos dorminhocos que se apoiam em você, além dos espertos que furam aquela fila que nasce em 2 segundos e morre em 1,5, quando alguém maior que você passa na sua frente (imaginem um Alien magricelo);
- Atender 9 vezes, em um mesmo dia, pessoas que ligam errado para sua residência. Foram 9 pessoas diferentes;
- Ficar atrasada em uma análise muito importante, feita por meio de mais de 50 slides, já que o ppt trava a cada dois minutos de uso, e;
- Morar, nos finais de semana, em um local praticamente sem internet, com pernilongos famintos e longe da cidade.
Essa era a lista que eu estava maquinando na minha cabeça, nos últimos dias. Ontem aconteceu o fato do recente quase atropelamento por moto, além de um rapaz cansado que praticamente deitou em mim, enquanto eu lia desassossegadamente "A cidade Sinistra dos Corvos", 7º livro de Desventuras em Série.
Cheguei em casa daquele jeito rebelde, sem muito cuidado com as portas e, por isso, fazendo estardalhaço com grades e cadeados. Murmurei um "olá" daqueles que querem dizer, na verdade, "me deixem", e liguei o botão no automático, tomando banho, jantando e me organizando para dormir sem pausas para conversas ou chiados.
Quando estava decidida a fechar a porta do quarto e me trancar com os maiores problemas do mundo, papai chamou com uma indagação: "Alien, quantos anos você tem?".
Em segundos entendi a piada (apesar de que ele realmente poderia estar em dúvida, pois papai tem quatro filhos e às vezes troca um nome pelo outro) e, sem muita vontade, me arrastei para a sala, encontrando e me encostando com carinho no engraçadinho perspicaz.
"Vinte e um anos, pai. E já estou quase velha. O que foi?".
Como eu esperava, ele começou a me dar conselhos para aplacar o estresse que eu vinha sentindo, após ter perguntado o que me causava tanta ansiedade. Expliquei alguns pontos da lista supracitada, e ele sorriu. Deu o exemplo mais verossímil que poderia: ele mesmo, e então eu comecei a escutar mais atentamente.
Meu pai sempre foi um cara muito estressado, a despeito de ser engraçado e carismático. Geralmente o trabalho o deixa muito impaciente, apesar de claramente existir uma paixão pelo que faz. Dorme tarde e trabalha muito, toma diversas xícaras de café por dia e continua sendo o pai mais belo da face da Terra, aos 40 anos: imagine uma mistura de Brad Pitt e Marcello Antony (filha coruja). Hoje ele é mais tranquilo, ou pelo menos luta para ser, pois sabe que estresse não melhora a vida em canto nenhum, pelo contrário, diminui a qualidade.
A razão pela qual eu não deveria perder a cabeça se mostrou de uma forma simples, através das palavras de papai.
Em suma, apesar de todas as aversões e infortúnios que se abatem contra nós, temos sempre outro dia para reverter as situações que nos chateiam, e quase nos fazem perder um ou outro neurônio. Para cada desventura, uma solução há de surgir. É como um equilíbrio natural, parecido com uma citação que vi de Jung: "A vida acontece no equilíbrio entre a alegria e a dor".
Partindo da premissa de que sempre teremos uma nova chance de resolver os problemas, e também de que um dia morreremos (meros mortais), está aí, diante de você e de mim, o presente, para mudarmos e criarmos a maior diversão que alguém um dia já viu.
Fincando mais os pés no chão e sendo realista: com persistência, podemos modificar as infelicidades. O tamanho da vontade da felicidade que queremos pode ser influenciado por experiências ruins. Logo, esses odiados momentos também nos ensinam.




















